quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Álora.

Estou cansado...depois de um dia inteiro a dirigir e a passear com meu filho, fomos a Ronda e depois a Málaga, e então fomos até o hotel onde passaremos a noite.
Chamo-o para dar uma volta, conhecer os arredores, mas ele também está cansado, havia trabalhado a noite toda e quis ficar no quarto e descansar.
Saio a caminhar pela única avenida da pequena cidade de Álora e me vejo sentando à mesa em um movimentado bar...um dos raríssimos estabelecimentos abertos e, acreditem ou não, estava bem movimentado.
O garçom demora um pouco a aparecer e como estou sem pressa, passo então a fazer aquilo que mais gosto: observar.
De repente sinto com o se o tempo parasse...uma sensação estranha e boa ao mesmo tempo, um tipo de transe.
Há apenas quatro pessoas estranhas naquele lugar, eu e noutra mesa próxima três mulheres a falar inglês, como eu estrangeiras ali...o garçom vem, gordo de rosto rendono, um tanto cansado e me pergunta o que desejo, com meu espanhol horrível peço uma cerveja e o cardápio, ele anota e sai, logo volta com o copo e começo sem pressa pensar o que iria comer...
Peço uma porção de fritas com aioli e lulas e volto a observar...
Nas mesas algumas famílias e casais, todos se conhecem, conversam entre si em voz alta, dando risada e fazendo piadas com os amigos das outras mesas...do outro lado da rua uma praça bem arborizada, bancos e brinquedos para os pequenos que também estão lá, comem com seus pais e atravessam a tal avenida a rir e brincar sob os gritos de atenção com os poucos carros que por ali passam.
Não sei se a mistura de cerveja com cansaço fez tal efeito mas me senti em outro lugar...não! Em outro tempo...
Aquelas mesmas pessoas estavam ali há 500 anos, naquele mesmo bar, taverna, tasca ou seja lá que nome tinha, mas estavam lá...e eu também.
Conversavam, riam, gritavam e brincavam entre sim, bebendo cerveja e comendo, enquanto observavam seus filhos a brincar no terreno ali ao lado.
Vejo seus rostos, rio com seus sorrisos, ouço suas vozes mas nem imagino o que falam...como hoje há quinhentos anos meu espanhol também era ruim.
Sinto-me bem, feliz, contagiado com a alegria cansada daquelas pessoas que trabalharam o dia todo e em plena segunda-feira lá estavam para beber e conversar...o mesmo lugar onde estarão daqui a quinhentos anos...junto comigo.
Como devagar, aproveitando a deliciosa refeição que me fora servida...sem que eu perceba minha cerveja termina e o garçom de rosto redondo oferece-me mais uma que rapidamente e com prazer aceito...quero voltar a meus devaneios.
Acendo meu charuto e o fumo com calma...mais calma que o normal...peço um café.
As pessoas dali, homens, mulheres, crianças, ainda estão a conversar e beber e rir, termino meu café e peço a conta que pago também sem pressa.
Ao pagar digo ao garçom que a comida estava deliciosa e agradeço a hospitalidade, meio assustado ele abre um sorriso no rosto redondo e agradece pelos elogios, apesar da cara fechada é um bom homem...cansado.
Pergunto se posso terminar meu charuto e ainda a sorrir ele me diz para ficar o quanto desejar...assim faço.
Termino meu charuto e meio que acordo do meu transe...volto para o momento atual e levanto, o tempo não parou, fiquei quase duas horas ali.
As pessoas ainda conversavam, riam e gritavam com seus miúdos, levanto e vou-me...
Elas ficarão...e ali estarão por mais quinhentos anos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário